segunda-feira, 8 de setembro de 2008


Ensaio sobre a minha cegueira – Parte II

 

São Paulo, uma hora e cinco minutos da madrugada. Nas primeiras horas do dia nove de Setembro, são oito meses desde que escrevi o primeiro ensaio sobre a minha própria cegueira (parte I). É estranho. Estou novamente em São Paulo, cidade onde boa parte do filme Blindness foi rodado. Há meses atrás, eu estava também onde o filme estava sendo rodado, lá no Canadá. E de lá mesmo comecei a acompanhar o blog do filme (http://blogdeblindness.blogspot.com/) que acabo de assistir hoje, cuja pré-estréia aconteceu na FAAP. Até aí tudo bem, não fosse pela minha imensa vontade de assistir este filme o mais rapidamente possível e esta possibilidade ocorrer porque hoje estou de volta a São Paulo e também de volta à FAAP na labuta diária. 

Ainda sofrendo os efeitos da produção cinematográfica em questão, acrescido de acontecimentos posteriores, não pude evitar por chegar em casa e debruçar-me em reflexões para tentar enxergar as novidades que clareiam as minhas idéias pelo momento. A cegueira que Fernando Meirelles “imprimiu” em um ritmo atordoante e alucinante nesta produção me deixou por certas vezes chocado, coisa que não deveria ser mais novidade pois já citei aqui anteriormente sobre as barbáries que já não acredito mais serem motivos de choque ou surpresa. Acostumando à visão às mais absurdas formas de se enxergar o mundo o ser humano passa a existência sem perceber as próprias fragilidades. 

Logo após assistir o filme acabei por sair mais uma vez pelas ruas de São Paulo como de costume diário para me locomover do trabalho para casa e de casa para o trabalho, nem sempre é assim, mas normalmente é. Hoje foi mais ou menos assim, ou melhor, foi assim com uma breve e providencial parada para me alimentar no meio do caminho e em meio a um diálogo com uma pessoa no jantar acabei por citar o quanto gosto de São Paulo e do meu país, este mesmo país que um dia deixei acreditando que demoraria a voltar. Após um ano estou eu aqui de volta e volta e meia vejo as voltas que a vida dá e de tanto ir e vir começo até mesmo a ficar tonto diante de tanto vai e vem. Porém, é inevitável citar que assistir a este filme após já ter até parafraseado o tema para citar minhas inquietações e demonstrar a minha própria cegueira, estou completamente submerso neste universo da cegueira branca que invadiu aquela cidade que a criatividade do Sr. José Saramago criou e que o Sr. Fernando Meirelles recriou filmando aqui na minha querida cidade de São Paulo, que no mês de outubro próximo escolherá seus novos governantes mediante a mais um processo eleitoral. 

É inevitável deixar de citar os políticos. Que são aquele tipo de cegos que enxergam. Aqueles mesmos, que tudo podem, tudo sabem, e nada fazem. Cuja cegueira é mental, porém as conseqüências são as mesmas vistas naquelas cenas que vi hoje no filme em questão. Lixo, sujeira, podridão, manipulação, chantagem, coação, controle, tirania, violência.....o clima do filme é pesado. Poderia ter mesmo sido rodado em Brasília, mas não foi, foi aqui. Na cidade onde nasci, cresci e onde vi e vejo sempre que a cegueira é mesmo uma epidemia desenfreada, sem deixar também de lembrar que os cidadãos são os responsáveis diretos e por esta simples razão são os mais diretamente afetados pelos vôos cegos de uns e outros.

Ver as cenas que vi hoje neste filme me trazem à tona a realidade novamente. O que de tão diferente pode estar inserido no contexto da realidade literária que Saramago nos oferece? Nada mais moderno. Nada mais apropriado. Porém, como se envolta em uma cortina de fumaça (o que também não é ficção tamanha a poluição), a cidade de São Paulo reflete o lado produtivo de um país em ascensão econômica. A locomotiva de um gigante adormecido. Mais uma vez nada mais apropriado, a locomotiva do país coberta de fumaça podre, cinza e tóxica.

Não há nada de diferente à obra de Saramago acontecendo aqui, ou ali ou acolá. A humanidade só não ficou de fato fisicamente cega, antes fosse. Pois de olhos bem abertos as sociedades modernas estão em pé de guerra com seu instinto de sobrevivência e em guerras mercadológicas insustentáveis se digladiam por comida. A África paga o preço da fome, o Iraque paga o preço do horror, Nova Orleans paga o preço do clima, São Paulo paga o preço do caos, meu vizinho paga o preço da indiferença e nós todos pagamos pelo preço da escolha. A escolha do ser humano parece ser esta. Deixar de enxergar quão maravilhosa pode ser a vida. Sem brigar por migalhas, sem os horrores da guerra, sem a cegueira que assola as mentes corruptas que fazem com que tudo se destrua em uma fração de segundos. 

As guerras acontecem quando a capacidade humana de “enxergar” a realidade míngua. Quando apenas o que se quer ver é aquilo que se quer ter. Quando a subversão se contrapõe à natureza real do que nos circunda. Quando o ser humano deixa de lado o princípio de tudo, que é a natureza materna da mãe natureza! Curiosamente, devo ainda citar que não pude deixar de reparar em uma cena em que isso é comprovado, que é quando a mulher do médico, a única que enxerga, após passar por todos aqueles momentos mais horrendos de sua existência se encontra sentada à calçada após estarem livres novamente e observa cães famintos devorando cadáveres para também alimentarem seus instintos de sobrevivência, e em meio a isso um cachorro se aproxima dela e lhe lambe o rosto, lhe dá carinho e após duas horas de filme eu fui capaz de ver aquela mulher sorrir! Sorriu ainda faminta, exausta em meio ao caos assolando a humanidade...mas sorriu...porque foi agraciada pelo nosso amigo e personagem principal deste blog e onde tudo começou. O cão! 

Para quem quiser entender melhor, basta ler o primeiro de todos os textos deste blog:  http://a-houndtheworld.blogspot.com/2007_05_01_archive.html

Talvez assim caminhe a humanidade. Talvez não. Ainda acredito que o que vale é o ponto de vista. Mesmo que a vida dita “vida de cão” por vezes nos deixe cegos. Mas como acredito muitos nos cães, sei que seus instintos e faros podem por vezes nos guiar de maneira mais confiável que muitos ratos que estão por aí (com perdão aos ratos pelo trocadilho).

sábado, 3 de maio de 2008

A maior "humanada" que eu já vi na vida!


É mês de Maio aqui no blog...chegou, é mês de aniversário. É uma pena, e não é de galinha. A pena em questão é de como entender a pena. A pena! Palavra sorrateiramente duvidosa, e por natureza triste.
E com o mês de Maio (no Canadá) chegou a primavera. Tempo de renascimento, nova vida, o cantar dos pássaros, o colorido das flores se espalhando num ciclo interminável de tentativas constantes de nos mostrar como a vida poderia ser mais bonita! Poderia...apenas poderia! Daí, da pena acaba por "brotar" o poder - com o devido perdão aos brotos do reino vegetal. Como pode??? Isso pode????? A que ponto chegamos do que se pode e não pode??? E não entenderei para o resto da minha vida o que leva uma pessoa a cometer uma crueldade, barbárie, estupidez.....sei lá que tipo de palavra deve ser usada para falar sobre isso. Por maior que seja uma sopa de letras não teriamos combinações suficientes para dizer de quem se trata o tal sujeito que cometeu este ato.
Passado o desespero do desabafo, retomo às linhas e me concentro num texto que se refere à uma fotografia, isso todos já perceberam sobre este blog. Mas é aí que está o problema. Para alguns leitores, se eu já os tivesse, seria desnecessária a observação citada anteriormente. Mas não desta vez. Eu tive que citar esta questão e não é uma tentativa de discorrer o texto de forma mais dramática para alimentar a trama, porque as tramas hoje em dia estão atingindo índices estratosféricos de sucesso. É cão morto à fome, é pai que joga filha do sexto andar, é tiro na cara por causa de um trocado. Como a trama social contemporânea chegou a este ponto após séculos de "evolução" em diversos aspectos da vida. A sociedade humana passou pelo renascimento, onde artistas "imaculados" no quesito participação ativa na transformação histórica da humanidade dava os primeiros passos para a transfomação entre a Idade Média e a Civilização Clássica que precederia o período da já previsível predominância do Cristianismo sobre a cultura européia. Os renascentistas, por milhares de vezes, manisfestaram através da arte vestígios de uma futura história que hoje desponta e deságua em proporções sem precedentes de que novamente, os valores se inverteram. A humanização do humano é uma lenda tão antiga que nem a própria história pode mais acreditar. Os limites foram rompidos, as barbáries voltaram, com toda força....e ainda chamam isso de atualidade. Ou seja, o mundo olhando para a história e vendo tudo se repetir......
Não sei ainda quanto me falta dizer antes de voltar a colorir este texto falando da primavera que mais uma vez se aproxima do seu apogeu e está prestes a presentear o mundo com a mais vasta coleção de cores, cenários e paisagens já vista num planeta onde a maioria dos que o habita, não enxergam a vida.....
Vou começar por aqui então à minha homenagem pessoal ao A-HoundtheWorld! mas ainda não de forma alegre, e sim, passando por citações em postagens anteriores.
Em janeiro deste ano, passados seis meses sem escrever algo relevante, particularmente para o blog, que completava seu nono mês no ar, acabei por escrever sobre a cegueira. Era 3 de Janeiro e dez minutos para as quatro da manhã. Pra quem quiser conferir, role a tela ou pegue o link: http://a-houndtheworld.blogspot.com/2008/01/ensaio-sobre-minha-cegueira.html
Viram??? Quanta praticidade.....role a tela ou pegue o link! E enquanto isso uns brincam de dizer aos cachorros: role e finja de morto! E a cegueira humana permitiu que um animal desse fim a um cãozinho por inanição à vistas de imbecis de queriam chamar uma brutalidade de arte. A bestialidade e a arte. A levianidade e a arte. A cegueira e a arte. A fome e a arte. A pena e a arte. Voltamos à pena. Volte na foto, olhe bem para eles, seja forte!!! Volte. Volte mesmo lá e repare na imagem a relação da "arte" com a humanidade hoje em dia. Mas, por um lado, sejamos práticos, como já citado a respeito dos tais "serezinhos humanos" indecifráveis em outro texto que agora neste exato momento lhe oferece mais uma opção na vida, (role a tela ou pegue o link:http://a-houndtheworld.blogspot.com/2007/07/por-mais-que-no-queiramosas-rosas.html ) sejamos práticos, basta dizer que nada por ser feito. A praticidade humana traz consigo um conjunto de valores indissociáveis da barbárie. As barbaridades são práticas, rápidas. Quando não instantêneas!
Em fevereiro deste ano, a personagem da formiga ( http://a-houndtheworld.blogspot.com/2008/02/formiga-trabalha-eu-trabalho-e-voc.html) veio à tona para trazer algumas questões que insetos zunzunavam nos meus ouvidos. - "A formiga não trabalha por um mundo melhor pois a formiga trabalha sem questionar o mundo que habita. Eu tento trabalhar por um mundo melhor quando questiono o mundo que habito. Quanto a você, eu não posso nem imaginar o que pensa do mundo. " - e continuo nem imaginando, pois depois de golpes como este, fica difícil imaginar qualquer coisa, mas não pela falta de criatividade e descrença no mundo que nos cerca hoje, e sim pela simples vontade de também se sentir em estado de inanição, assim como o drama do nosso amigo da foto, que partiu e não pôde, assim como as rosas, murchar naturalmente e seguir seu ciclo de transformação, não pôde! Murchou amarrado, desidratado e faminto.
- A barbárie só muda de face, nunca de lado. -
Quero terminar aqui, pois já não aguento mais prosseguir....e nada melhor que finalizar retornando ao começo, cumprindo-se um ciclo e retornando à origem, consequentemente, seguindo o sentido da vida. Que ao contrário de murchar é florescer, renovar a vida! Mas prometi voltar ao começo e vou faze-lo agora (http://a-houndtheworld.blogspot.com/2007/05/observando-esta-imgem-muitas-vezes-me.html).
Um ano depois, a postagem de aniversário "ganhou" esse presente de tema. A foto, que é chocante, deste vez nem me interessa a partir de que olhar humano foi gerada. Do meu eu sei que não foi, porque qualquer imbecil que por aquele lugar passou, fotografou, riu, chorou ou qualquer outra coisa que não me interessa, é um completo imbecil que passou recibo para este monstro e demonstra que realmente a raça humana se superou! Que "humanada" fizeram com o pobre cãozinho. Que a imprensa até agora nem se deu ao trabalho de perguntar se tinha um nome. Publicaram a merda!!! Ajudaram a repercutir, e desta maneira o animal foi convidado a repetir a dose do número de atrocidade humana em forma de sei lá o que.....mas arte eu sei que não é!
De uma certa forma, estou aqui também angariando ibope para a questão, mas como não tenho leitores assim com disse antes, me sinto mais tranquilo para tentar tornar esta minha opinião, pelo menos por agora, alguma atitude da qual a minha indignação não poderia se passar por desapercebida no intuito de não toma-la. O cãozinho não tem nome, ele era invisível. Talvez, me nego a pensar por este lado, pois a falta de justificativa chegou ao seu limite, mas, talvez, e isso ouvi de um amigo, partindo exatamente da minha afirmação anterior de que o que vale é o ponto de vista (como a frase de criação inicial deste blog), este amigo me disse que talvez a intenção do animal que prendeu o cachorro, fosse mostrar ao mundo que os cães de rua irão morrer de sede e de fome de qualquer jeito, invisíveis, imprestáveis. Sim, porque na minha cabeça, quem passou por aquela sala de horror e não tomou nenhuma atitude só pode estar cego, ou o cachorro ser mesmo invisível. Como o cachorro de fato não era invisível, logo, as pessoas obrigatoriamente é que eram cegas. Estamos às cegas! A epidemia de Saramago se confirma....as pessoas estão todas cegas. E estão cegas, por não saberem o princípio da vida que é enxergar a si mesmo pra começar....quem sabe aí, despertar de fato para a vida. Ele se foi, de fininho....bem fininho.....seria um nome lindo para um cãozinho que ao invés de ser barbarizado, fosse encontrado na rua e criado com carinho.....como até tenho um lá em casa que me surgiu nessas condições, mas o Apolônio acabou por não se chamar fininho....virou Apolônio, agora, o Fininho da foto aí me cima pode crer em uma coisa......eu te chamarei de Fininho sempre, porque pra mim você não é invisível e foi uma pena não estar por aí pra te dar uma força quando precisou.....infelizmente. Afinal, sou humano!!! Agora com um pouco mais de vergonha de ser humano meu amigo, descanse em paz!!! E o Senhor, Sr. Guillermo Vargas Habacuc, "artista" barato, canalha e no mínimo maluco, saiba que são seres como você que atrasam a evolução humana....quer queiram quer não, irá continuar....por que sei que esse mundo também tem humanos que valem à pena!!! A pena.....
Não tenham pena do Fininho....ele vai ficar bem! Tenha pena de nós humanos, pois a nossa conta irá ser enviada e a natureza vai cobrar!!! Não tenham dúvidas.

domingo, 24 de fevereiro de 2008



A formiga trabalha, eu trabalho e você trabalha. A formiga carrega, eu carrego e você carrega. A formiga caminha, eu caminho e você caminha. A formiga sabe o rumo, eu ainda nem imagino o meu e talvez você saiba o seu, ou não. As vezes ainda me impressiono com a capacidade humana de reproduzir imagens tão significativas. Eis aqui mais uma. Assim como o propósito deste blog em seu início, mais uma vez, comprovadamente vale o ponto de vista. O que você vê nesta imagem? Se eu tivesse leitores, talvez eu recebesse as mais variadas respostas e tão certo quanto dois mais dois são quatro, eu receberia mais do que respostas. Talvez, receberia os mais diversos comentários e tenho a plena certeza de que absolutamente nenhum seria igual ao outro, por mais semelhantes que possam ser algumas porções deles. Há exatos nove meses e dois dias eu iniciei este blog falando sobre ponto de vista (conforme pode ser conferido lá no fim da página), me valendo de uma fotografia que, assim como esta, não sou o autor. Mas tenho a plena certeza de que quem as tirou, se sentiria, no mínimo, agraciado com textos questionadores e pelo meu ponto de vista, reflexivos. Para a minha sorte, as pessoas as quais me cederam tais imagens são inegavelmente valorosas e de pontos de vista muito apurados. Voltando ao texto, eu ia dizendo que a exatos nove meses e dois dias eu publiquei as primeiras linhas deste blog falando sobre o olhar humano captando imagens e notadamente trazendo a reflexão sobre a vida, que muitas vezes é chamada de vida de cão, que também é vivida num planeta em que muitas vezes é chamado de mundo cão. Cachorradas à parte, hoje, depois algum tempo, o animal em questão é outro e também rende muita analogia entre nós humanos. Até porque nós humanos, que muitas vezes dizemos que levamos uma vida de cão, dizemos isso pois achamos que trabalhamos em demasia, assim como a formiguinha em questão. Porém, o questionamento que surge aqui entre os meus singelos miolos residentes na dita massa cinzenta, ou encefálica, é: - Até quando a satisfação ou a insatisfação humana permitirá que as formigas nos dêem lições dia após dia, simplesmente mostrando que o trabalho não enobrece ninguém e nem dignifica o homem? Muitos de nós trabalham satisfeitos. Muitos de nós trabalham insatisfeitos. Muitos de nós nem trabalham. E muitos de nós pensam que trabalham. Me sirvo do exemplo da formiga, pois entendo que trabalhar é algo tão natural, mas tão natural, que deveria ser banido do mapa qualquer tipo de questionamento a respeito do assunto. Realmente, eu gostaria de ter leitores. Para que eu não tivesse o trabalho de ter que responder a mim mesmo. Viram? É natural também a vontade de "economizar" energia quando o assunto é trabalho! Sou um provocador. Na verdade, se cometi alguma incoerência nos parágrafos acima é porque ainda tenho que trabalhar muito para melhorar a minha capacidade intelectual e dissertativa. Talvez por isso eu não tenha ainda tais leitores (risos). Mas o objetivo foi alcançado. Quase cinco da manhã e eu aqui trabalhando estas linhas para que talvez meia dúzia de "gatos pingados" as leiam. Mas estou muitíssimo satisfeito por ter adicionado mais uma reflexão vinculada à uma imagem tão inquietante que a mim chegou através de uma foto. E como eu disse no primeiro de todos os textos, a imagem fotográfica é o "olhar" humano registrando momentos únicos naquela fração de segundos. A formiga não trabalha por um mundo melhor pois a formiga trabalha sem questionar o mundo que habita. Eu tento trabalhar por um mundo melhor quando questiono o mundo que habito. Quanto a você, eu não posso nem imaginar o que pensa do mundo. Mas faço mais uma vez o convite para que trabalhemos juntos para tornarmos este planeta, em que habitamos juntos, uma morada de melhores condições em que vivemos hoje. Pois os cães, as formigas e as demais formas de vida estão por aí afora, nos "esfregando" na cara a harmonia de viver com naturalidade. Mas nós, os “serezinhos” humanos tão indecifráveis e não tanto inquestionáveis quanto à vida, estamos devendo ao planeta. Precisamos trabalhar. Around the world.

Dá tempo de refletir até 2014?


O craque brasileiro: Produto Exportação


Sem dúvida. O Brasil é o país do futebol!
O Brasil do verde, do amarelo, do azul e do branco...assim como o Brasil do negro, do mulato...
O Brasil de todas as raças, de garotos que, além de garotos, são marotos. Com a bola nos pés, são os melhores!
O orgulho nacional, futebol pentacampeão mundial! Futebol de estrelas, que nascem e aqui crescem, para quando começarem a brilhar com total intensidade, infelizmente, brilharem em outros campos, em outras terras, as quais podem pagar pelo show de “luzes”, dribles, gingas, habilidade, técnica e jogadas tipicamente marotas do futebol mais alegre do mundo. E nós aqui, brasileiros, apaixonados pela nossa maior arte – arte esta que nação nenhuma no mundo é capaz de representar melhor – nos deparamos freqüentemente com o momento de dizer adeus.
Temos que conviver com o fato de vivermos em um país carente de luz própria, de ídolos, além de outras coisas mais. O que não vem ao caso agora. Somos o povo da alegria, da diversidade, da paixão, da emoção de ser brasileiro e mesmo assim vemos as nossas estrelas despertarem seu brilho bem ao longe, e ainda nos orgulhamos disso. Pois achamos que assim o nosso nome, bem como a nossa bandeira, estará sendo ostentado pelo mundo afora.
E quanto a nós? Por que não temos nossos dias de glória em território nacional? Por que nossos craques não são o que são por um aspecto simplesmente cultural?
Não! Não são os mestres da nossa maior arte por simples aptidão para tal, por um dom divino e conhecimento daquilo que representam, os nossos craques são o que são, justamente porque se não forem Ronaldinhos ou Pelés, provavelmente serão mais alguns Josés Ninguém. Sem estudos, sem cultura, sem saúde, sem conforto, sem paz de espírito, sem direitos, sem trabalho, sem futuro.....e portanto.....sem esperança!
E são essas adversidades que os nossos craques, através da ginga, da habilidade e com muita força, driblam até chegarem aos holofotes da evidência, para transformarem sua luta e seus sofrimentos cotidianos em arte. Com capacidade de encantar milhões e milhões de amantes do esporte mais apaixonante do planeta que é a maior paixão do brasileiro! E por conseqüência também nos proporcionarem o “gostinho amargo” de vê-los rumando em direção aos aeroportos com suas bagagens e pés mágicos, deixando o Brasil mais pobre e carente.....para lá tornarem-se mais algumas ferramentas do maior show do planeta. O Showbusiness!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Ensaio sobre a minha cegueira....



Toronto, 3 de Janeiro de 2008 e faltando dez minutos para as quatro da manhã.


Pela primeira vez na vida experimento a sensação de temperaturas abaixo dos dez graus negativos, para ser mais exato, as dez para as quatro da manhã de hoje estou aqui com exatamente quinze graus negativos, a humidade relativa do ar em 65% e ventos a 11km/h. Juntando este "caldo" de informações, os meteorologistas afirmam que a sensação térmica é de 22 graus negativos por conta de tudo isso que citei acima, ou seja, pela primeira na vida experimento a sensação de temperaturas abaixo de vinte graus negativos, e não mais dez como eu acreditara anteriormente.
A vida é mesmo assim. Em poucos minutos, desde que novas informações venham à tona, nossas verdades podem mudar abruptamente. Afinal, dez graus negativos são bem mais razoáveis do que os vinte, apesar que ouço muito dizer por aqui que depois de um tempo o frio é tão intenso que quaisquer temperaturas negativas são semelhantes, vai do preparo que se faz para enfrenta-las. Assim como as nossas reflexões mais intensas, internas e intermináveis, os nossos sentidos habitam uma zona de conforto sem precedentes. Especialmente hoje, estou criando em linhas, um resultado de reflexões as quais até quinze ou vinte minutos atrás nem sequer passavam pela minha cabeça, pois todos os meus sentidos, assim como as minhas reflexões, estavam imersos em um profundo estado de quietude e numa imoral e dissimulada displicência.
Mas confesso, que olhando pela janela do quarto, fica mais fácil afirmar que os tais vinte e tantos graus negativos não me assustam. Assim como a minha displicência, que, em contrapartida à ausência de susto, me aflige e me cega. Há pouco eu disse que meus sentidos estavam num estado de quietude. Menti. E pior, descaradamente. Pois havia um sentido trabalhando intensamente.
Curiosamente, hoje acordei as duas e pouco da madrugada - horário em que geralmente estou indo dormir - e o mais curioso é que o motivo pelo que acordei neste peculiar horário, foi o calor. Sim, o calor de vinte e tantos graus positivos que o aquecimento da casa produz dentro dos quartos, fazendo com que o ar fique extremamente seco até que as narinas cheguem a sangrar. O meu olfato aliás, é um dos sentidos que está profundamente adormecido há alguns dias. É estranho conceber acordar de calor quando a temperatura lá de fora é tão fria. A neve caiu já tem uns dois dias e vejo tudo branco. o calor e o frio estão separados por um vidro de grossa espessura na janela do quarto e através dele posso identificar dois mundos tão diferentes, o da reclusão e o da exposição.
Depois de acordar, aqui recluso, invadi a rede mundial de computadores em busca de informações corriqueiras, enfim, o torpor que nos oferecem diariamente em doses cavalares. Confesso que também procuro ali e acolá as notícias a respeito do meu país todos os dias, pois assim como as informações corriqueiras, a saudade também já é chegada em doses cavalares após quase sete meses em terras do norte. Mais especificamente Canadenses.
Numa destas buscas por informações, aliada à falta de sono, a minha curiosidade começa a revirar endereços eletrônicos já manjados, outros nem tanto e sintetizando tudo, acabo por perder um pouco de tempo. Afinal de contas, lá pelas bandas do sul já confirmo que 2008 começa como se iniciaram tantos outros quinhentos e poucos anos. Ou seja, aumentando os impostos. Que novidade! Mas também vejo que o mundo me apresenta um início de ano como em tantos outros séculos e séculos anteriores, no Quênia, a barbárie dá as boas vindas ao novo ano que chega. Outra novidade! Afinal, as barbaridades só mudam de face, de língua, de localidade, de rosto e por aí vai.....por isso, coloco as barbas (que não tenho) de molho. Até porque hoje em dia a barba está na moda mas não é tão bem vista como se pensa.
Mais uma vez perco o foco e, minha indignação com os impostos, barbas e barbáries, falta de sono e temperaturas extremas me impedem de remeter-me ao início deste texto. Voltemos.
O ensaio sobre a minha cegueira começa por aquela mentira que eu disse de início sobre os sentidos. Eu havia afirmado que TODOS os meus sentidos encontarvam-se imersos e tal.....
A mentira se dá por conta de que após ter despertado no meio da noite, ao vasculhar informações desencontradas, tristes ou irrelevantes eu encontro, ou melhor, reencontro na minha lista de favoritos o diário de BLINDNESS, o blog do arquiteto e diretor de cinema Fernando Meirelles que atualmente finaliza a adaptação do Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago para o cinema.
O reencontro com este link (http://blogdeblindness.blogspot.com/) encheu os meus olhos, fez com que a minha visão se mantivesse ocupada por diversos minutos captando informações através destes. Estes mesmos olhos que por hora se ocupam em conferir a grafia destas linhas pelas quais eu confesso que a cegueira se abate por mim na minha reclusão. As temperaturas lá fora me convidam às ruas de Toronto, as mesmas por onde a co-produção Brasil-Canadá iniciou os trabalhos deste longa que, sem sombra de dúvidas, evidenciará que a cegueira está por todos os cantos. E digo isso a começar por mim, que um dia pensei em ser escritor sem ao menos ter me dado ao trabalho de ler Saramago.....
Agora, extamente uma hora depois, a exatos dez minutos restando para as cinco da manhã, a humidade continua nos mesmos 65%. Porém os ventos iniciam o seu silenciar, já estão a apenas 6km/h e, desta forma, as ruas talvez se tornem um pouco mais convidativas. Vou sair desta reclusão, ganhar às ruas e seguir em frente, comprarei o livro do Saramago e agradecerei nos meus pensamentos ao Fernando Meirelles, que no seu simples "diário de bordo", contribuiu para que eu conseguisse voltar a redigir um bocado de linhas depois de quase sete meses. Eu, no lugar de quem ler isso que escrevi, convidaria à mim mesmo a refletir sobre o que realmente significa enxergar o mundo.