
Ensaio sobre a minha cegueira – Parte II
São Paulo, uma hora e cinco minutos da madrugada. Nas primeiras horas do dia nove de Setembro, são oito meses desde que escrevi o primeiro ensaio sobre a minha própria cegueira (parte I). É estranho. Estou novamente em São Paulo, cidade onde boa parte do filme Blindness foi rodado. Há meses atrás, eu estava também onde o filme estava sendo rodado, lá no Canadá. E de lá mesmo comecei a acompanhar o blog do filme (http://blogdeblindness.blogspot.com/) que acabo de assistir hoje, cuja pré-estréia aconteceu na FAAP. Até aí tudo bem, não fosse pela minha imensa vontade de assistir este filme o mais rapidamente possível e esta possibilidade ocorrer porque hoje estou de volta a São Paulo e também de volta à FAAP na labuta diária.
Ainda sofrendo os efeitos da produção cinematográfica em questão, acrescido de acontecimentos posteriores, não pude evitar por chegar em casa e debruçar-me em reflexões para tentar enxergar as novidades que clareiam as minhas idéias pelo momento. A cegueira que Fernando Meirelles “imprimiu” em um ritmo atordoante e alucinante nesta produção me deixou por certas vezes chocado, coisa que não deveria ser mais novidade pois já citei aqui anteriormente sobre as barbáries que já não acredito mais serem motivos de choque ou surpresa. Acostumando à visão às mais absurdas formas de se enxergar o mundo o ser humano passa a existência sem perceber as próprias fragilidades.
Logo após assistir o filme acabei por sair mais uma vez pelas ruas de São Paulo como de costume diário para me locomover do trabalho para casa e de casa para o trabalho, nem sempre é assim, mas normalmente é. Hoje foi mais ou menos assim, ou melhor, foi assim com uma breve e providencial parada para me alimentar no meio do caminho e em meio a um diálogo com uma pessoa no jantar acabei por citar o quanto gosto de São Paulo e do meu país, este mesmo país que um dia deixei acreditando que demoraria a voltar. Após um ano estou eu aqui de volta e volta e meia vejo as voltas que a vida dá e de tanto ir e vir começo até mesmo a ficar tonto diante de tanto vai e vem. Porém, é inevitável citar que assistir a este filme após já ter até parafraseado o tema para citar minhas inquietações e demonstrar a minha própria cegueira, estou completamente submerso neste universo da cegueira branca que invadiu aquela cidade que a criatividade do Sr. José Saramago criou e que o Sr. Fernando Meirelles recriou filmando aqui na minha querida cidade de São Paulo, que no mês de outubro próximo escolherá seus novos governantes mediante a mais um processo eleitoral.
É inevitável deixar de citar os políticos. Que são aquele tipo de cegos que enxergam. Aqueles mesmos, que tudo podem, tudo sabem, e nada fazem. Cuja cegueira é mental, porém as conseqüências são as mesmas vistas naquelas cenas que vi hoje no filme em questão. Lixo, sujeira, podridão, manipulação, chantagem, coação, controle, tirania, violência.....o clima do filme é pesado. Poderia ter mesmo sido rodado em Brasília, mas não foi, foi aqui. Na cidade onde nasci, cresci e onde vi e vejo sempre que a cegueira é mesmo uma epidemia desenfreada, sem deixar também de lembrar que os cidadãos são os responsáveis diretos e por esta simples razão são os mais diretamente afetados pelos vôos cegos de uns e outros.
Ver as cenas que vi hoje neste filme me trazem à tona a realidade novamente. O que de tão diferente pode estar inserido no contexto da realidade literária que Saramago nos oferece? Nada mais moderno. Nada mais apropriado. Porém, como se envolta em uma cortina de fumaça (o que também não é ficção tamanha a poluição), a cidade de São Paulo reflete o lado produtivo de um país em ascensão econômica. A locomotiva de um gigante adormecido. Mais uma vez nada mais apropriado, a locomotiva do país coberta de fumaça podre, cinza e tóxica.
Não há nada de diferente à obra de Saramago acontecendo aqui, ou ali ou acolá. A humanidade só não ficou de fato fisicamente cega, antes fosse. Pois de olhos bem abertos as sociedades modernas estão em pé de guerra com seu instinto de sobrevivência e em guerras mercadológicas insustentáveis se digladiam por comida. A África paga o preço da fome, o Iraque paga o preço do horror, Nova Orleans paga o preço do clima, São Paulo paga o preço do caos, meu vizinho paga o preço da indiferença e nós todos pagamos pelo preço da escolha. A escolha do ser humano parece ser esta. Deixar de enxergar quão maravilhosa pode ser a vida. Sem brigar por migalhas, sem os horrores da guerra, sem a cegueira que assola as mentes corruptas que fazem com que tudo se destrua em uma fração de segundos.
As guerras acontecem quando a capacidade humana de “enxergar” a realidade míngua. Quando apenas o que se quer ver é aquilo que se quer ter. Quando a subversão se contrapõe à natureza real do que nos circunda. Quando o ser humano deixa de lado o princípio de tudo, que é a natureza materna da mãe natureza! Curiosamente, devo ainda citar que não pude deixar de reparar em uma cena em que isso é comprovado, que é quando a mulher do médico, a única que enxerga, após passar por todos aqueles momentos mais horrendos de sua existência se encontra sentada à calçada após estarem livres novamente e observa cães famintos devorando cadáveres para também alimentarem seus instintos de sobrevivência, e em meio a isso um cachorro se aproxima dela e lhe lambe o rosto, lhe dá carinho e após duas horas de filme eu fui capaz de ver aquela mulher sorrir! Sorriu ainda faminta, exausta em meio ao caos assolando a humanidade...mas sorriu...porque foi agraciada pelo nosso amigo e personagem principal deste blog e onde tudo começou. O cão!
Para quem quiser entender melhor, basta ler o primeiro de todos os textos deste blog: http://a-houndtheworld.blogspot.com/2007_05_01_archive.html
Talvez assim caminhe a humanidade. Talvez não. Ainda acredito que o que vale é o ponto de vista. Mesmo que a vida dita “vida de cão” por vezes nos deixe cegos. Mas como acredito muitos nos cães, sei que seus instintos e faros podem por vezes nos guiar de maneira mais confiável que muitos ratos que estão por aí (com perdão aos ratos pelo trocadilho).
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