Toronto, 3 de Janeiro de 2008 e faltando dez minutos para as quatro da manhã.
Pela primeira vez na vida experimento a sensação de temperaturas abaixo dos dez graus negativos, para ser mais exato, as dez para as quatro da manhã de hoje estou aqui com exatamente quinze graus negativos, a humidade relativa do ar em 65% e ventos a 11km/h. Juntando este "caldo" de informações, os meteorologistas afirmam que a sensação térmica é de 22 graus negativos por conta de tudo isso que citei acima, ou seja, pela primeira na vida experimento a sensação de temperaturas abaixo de vinte graus negativos, e não mais dez como eu acreditara anteriormente.
A vida é mesmo assim. Em poucos minutos, desde que novas informações venham à tona, nossas verdades podem mudar abruptamente. Afinal, dez graus negativos são bem mais razoáveis do que os vinte, apesar que ouço muito dizer por aqui que depois de um tempo o frio é tão intenso que quaisquer temperaturas negativas são semelhantes, vai do preparo que se faz para enfrenta-las. Assim como as nossas reflexões mais intensas, internas e intermináveis, os nossos sentidos habitam uma zona de conforto sem precedentes. Especialmente hoje, estou criando em linhas, um resultado de reflexões as quais até quinze ou vinte minutos atrás nem sequer passavam pela minha cabeça, pois todos os meus sentidos, assim como as minhas reflexões, estavam imersos em um profundo estado de quietude e numa imoral e dissimulada displicência.
Mas confesso, que olhando pela janela do quarto, fica mais fácil afirmar que os tais vinte e tantos graus negativos não me assustam. Assim como a minha displicência, que, em contrapartida à ausência de susto, me aflige e me cega. Há pouco eu disse que meus sentidos estavam num estado de quietude. Menti. E pior, descaradamente. Pois havia um sentido trabalhando intensamente.
Curiosamente, hoje acordei as duas e pouco da madrugada - horário em que geralmente estou indo dormir - e o mais curioso é que o motivo pelo que acordei neste peculiar horário, foi o calor. Sim, o calor de vinte e tantos graus positivos que o aquecimento da casa produz dentro dos quartos, fazendo com que o ar fique extremamente seco até que as narinas cheguem a sangrar. O meu olfato aliás, é um dos sentidos que está profundamente adormecido há alguns dias. É estranho conceber acordar de calor quando a temperatura lá de fora é tão fria. A neve caiu já tem uns dois dias e vejo tudo branco. o calor e o frio estão separados por um vidro de grossa espessura na janela do quarto e através dele posso identificar dois mundos tão diferentes, o da reclusão e o da exposição.
Depois de acordar, aqui recluso, invadi a rede mundial de computadores em busca de informações corriqueiras, enfim, o torpor que nos oferecem diariamente em doses cavalares. Confesso que também procuro ali e acolá as notícias a respeito do meu país todos os dias, pois assim como as informações corriqueiras, a saudade também já é chegada em doses cavalares após quase sete meses em terras do norte. Mais especificamente Canadenses.
Numa destas buscas por informações, aliada à falta de sono, a minha curiosidade começa a revirar endereços eletrônicos já manjados, outros nem tanto e sintetizando tudo, acabo por perder um pouco de tempo. Afinal de contas, lá pelas bandas do sul já confirmo que 2008 começa como se iniciaram tantos outros quinhentos e poucos anos. Ou seja, aumentando os impostos. Que novidade! Mas também vejo que o mundo me apresenta um início de ano como em tantos outros séculos e séculos anteriores, no Quênia, a barbárie dá as boas vindas ao novo ano que chega. Outra novidade! Afinal, as barbaridades só mudam de face, de língua, de localidade, de rosto e por aí vai.....por isso, coloco as barbas (que não tenho) de molho. Até porque hoje em dia a barba está na moda mas não é tão bem vista como se pensa.
Mais uma vez perco o foco e, minha indignação com os impostos, barbas e barbáries, falta de sono e temperaturas extremas me impedem de remeter-me ao início deste texto. Voltemos.
O ensaio sobre a minha cegueira começa por aquela mentira que eu disse de início sobre os sentidos. Eu havia afirmado que TODOS os meus sentidos encontarvam-se imersos e tal.....
A mentira se dá por conta de que após ter despertado no meio da noite, ao vasculhar informações desencontradas, tristes ou irrelevantes eu encontro, ou melhor, reencontro na minha lista de favoritos o diário de BLINDNESS, o blog do arquiteto e diretor de cinema Fernando Meirelles que atualmente finaliza a adaptação do Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago para o cinema.
O reencontro com este link (http://blogdeblindness.blogspot.com/) encheu os meus olhos, fez com que a minha visão se mantivesse ocupada por diversos minutos captando informações através destes. Estes mesmos olhos que por hora se ocupam em conferir a grafia destas linhas pelas quais eu confesso que a cegueira se abate por mim na minha reclusão. As temperaturas lá fora me convidam às ruas de Toronto, as mesmas por onde a co-produção Brasil-Canadá iniciou os trabalhos deste longa que, sem sombra de dúvidas, evidenciará que a cegueira está por todos os cantos. E digo isso a começar por mim, que um dia pensei em ser escritor sem ao menos ter me dado ao trabalho de ler Saramago.....
Agora, extamente uma hora depois, a exatos dez minutos restando para as cinco da manhã, a humidade continua nos mesmos 65%. Porém os ventos iniciam o seu silenciar, já estão a apenas 6km/h e, desta forma, as ruas talvez se tornem um pouco mais convidativas. Vou sair desta reclusão, ganhar às ruas e seguir em frente, comprarei o livro do Saramago e agradecerei nos meus pensamentos ao Fernando Meirelles, que no seu simples "diário de bordo", contribuiu para que eu conseguisse voltar a redigir um bocado de linhas depois de quase sete meses. Eu, no lugar de quem ler isso que escrevi, convidaria à mim mesmo a refletir sobre o que realmente significa enxergar o mundo.